quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AS PRIMEIRAS CAPAS


O início da minha actividade como gráfico (nessa altura raramente se usava a palavra designer – era “desenhador gráfico” como nos designavam), deu-se verdadeiramente com as Edições Vega em 1983, quando realizei a minha primeira capa: Fábulas do Tempo Presente e do Tempo Futuro, de Carlos Couceiro (falecido em Março deste ano, era engenheiro, também guitarrista – foi o primeiro guitarrista de José Afonso – e pai do piloto de automobilismo Pedro Couceiro), livro que também ilustrei, seguindo-se a capa de Capim e Poemas Supérfluos do mesmo autor. Estava empregado na Ilídio Monteiro Construções, Lda. (1981/1984), como desenhador de arquitectura e construção civil e ia fazendo uns extras por fora: capas para a Vega, desenho de projectos e maquetas de arquitectura para diversos arquitectos, projectos de legalização de moradias, criação de logótipos, pintura de montras de lojas, etc….

Uma das primeiras capas de colecção que fiz para as Edições Vega, de Assírio Bacelar.
O layout já existia, portanto foi só finalizar o título, o nome do autor, descobrir uma foto do mesmo e acrescentar-lhe uma pequena "marca" pessoal: a caneta em cima das folhas de papel.

Quando terminei a colaboração na Ilídio Monteiro em 84, já estava muito mais virado para o grafismo e a pouco e pouco fui largando o desenho de arquitectura. Em 1985 respondi a um anúncio das Edições 70, onde entrei como desenhador gráfico para fazer o grafismo e a paginação do Boletim editorial da editora (que celebrava o 15º aniversário) para a Feira do Livro desse ano, realizando depois a decoração dos stands.


A primeira capa que fiz nas Edições 70 foi, se não me engano, para a prestigiada colecção Lugar da História cuja capa, como quase todas as capas das 70, havia sido concebida e desenhada por Alceu Saldanha Coutinho – que já lá não trabalhava e nunca cheguei a conhecer. Ora Saldanha Coutinho trabalhava com tipos de letra desenhados por ele próprio: os alfabetos eram fotografados na gráfica em diversos corpos (ou tamanhos) e ele recortava depois cada tipo de que necessitava e formava assim os letterings das capas. Isto dava uma trabalheira incrível, como se perceberá, quando há mais de vinte anos se usavam letras decalcáveis para esse fim. A pouco e pouco fui substituindo as letras desenhadas à mão por tipos Mecanorma. Mas o da Lugar da História, J.J. Soares da Costa, o editor, director, dono, etc… das 70 nunca me autorizou que o substituísse.


Capa de Alceu Saldanha Coutinho para a colecção "Lugar da História" e a primeira capa que realizei para essa colecção - eliminando os meios tons.


Assim, quando foi necessário “dar cor” às capas (que eram só a uma cor – uma cor da escala pantone para o fundo e rede de 50% para o nome do autor e ilustração), reformulei timidamente o layout, mas tive de manter o lettering do Saldanha Coutinho. Aquilo era sagrado!!!

Vejam-se abaixo as maquetas com cor e a capa aprovada.


Capa aprovada, completa


Curiosamente, dezoito anos mais tarde, em 2003 e 2004, voltei a trabalhar para as Edições 70 e a fazer nova alteração para as capas da colecção "Lugar da História". J.J. Soares da Costa queria aumentar o formato da colecção, para tentar evitar que se fotocopiassem os livros. A essa alteração, juntei outras no desenho da capa, quase imperceptíveis, e finalmente adoptei um lettering do mapa de tipos do Corel Draw, o Elephant condensado, que era o que mais se parecia com o anterior.


As duas capas completas que realizei em 2003 e 2004.

Resta dizer que em 2005 J.J. Soares da Costa vendeu as Edições 70 à Almedina e reformou-se. A Almedina tratou de também reformar todas as capas das colecções das 70, mas ainda se encontram muitos livros com capas minhas desse período, nos alfarrabistas.

Para as Edições 70 realizei, em três anos e meio um número de capas que não consigo quantificar (cerca de 7 a 10 por mês), algumas delas entrarão neste blogue, a seu tempo.

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