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domingo, 29 de setembro de 2013

PARA AS EDIÇÕES 70 (1985/88) – CAPAS PARA A COLECÇÃO “OBRAS DE JOSÉ LUANDINO VIEIRA” E PARA A UNIÃO DE AUTORES ANGOLANOS


PARA AS EDIÇÕES 70 (1985/88)
CAPAS PARA A COLECÇÃO
“OBRAS DE JOSÉ LUANDINO VIEIRA” 
E PARA A UNIÃO DE AUTORES ANGOLANOS

Como este blogue me serve também para fixar alguns momentos, por vezes hilariantes, que já vivi em 35 anos de profissão, faço pequenas introduções escritas das minhas memórias, para que se perceba como as coisas se processavam na altura.

Nas Edições 70, em 1985, comecei por trabalhar na sala da Produção. A editora tinha sede no rés-do-chão esquerdo do nº 69 da Avenida Duque de Ávila e a Produção era numa sala do 1º andar. Uns meses mais tarde arranjaram-me um pequeno “atelier” numa sala de arrumações desse 1º piso. Depois de fazer o Boletim Editorial para a Feira do Livro desse ano – trabalho para o qual tinha sido contratado (como penso que já disse, respondi a um anúncio publicado no JL) –, J.J. Soares da Costa propôs-me fazer uma capa de livro para ver como é que eu me desenrascava. Já não me recordo qual foi a primeira capa, mas penso que foi para a colecção Lugar da História... Desenrasquei-me satisfatoriamente e comecei então a fazer capas para as 70.

Um dia, passava pelo corredor do rés-do-chão e percebi que havia uma grande discussão, em “alta voz”, na sala de reuniões. Achei estranho e esperei um pouco para tentar perceber o que se passava – a curiosidade é um bicho do caraças. Passados alguns minutos, sai um tipo da sala, com um rapaz ao lado. O tipo, soube depois, era o Victor Mesquita (com o filho) e estava com cara de poucos amigos. Passadas umas duas horas fui chamado à sala de reuniões pelo “Sr. Director J.J. Soares da Costa”, que também ainda estava com cara de poucos amigos e que me expôs a situação, mas adoptando de imediato o seu estilo polido característico, tão característico como o “ar amigável” de algumas serpentes:

– Machado Dias, precisamos de uma capa para um livro das obras do Luandino Vieira, muito rapidamente. Acha que consegue? Dois dias, três dias, não mais...

– Penso que sim. Não há problema. Mas... não havia um tipo que fazia estas capas?

– Isso não vem ao caso agora. Só lhe digo, que nunca se meta com aldrabões que pensam ter o rei na barriga... pode dar-se mal. Mas essa gente comigo não leva nada!!!

Bom. Foi assim que “sucedi” ao Victor Mesquita como capista das Obras de Luandino Vieira – mais tarde haveria de suceder ao José Ruy como capista da Editorial Notícias... Mais tarde isto pareceu-me ter sido tudo um “desígnio”, “um fado”, uma “emboscada”, sei lá... a Banda Desenhada, a que eu não ligava “pevide” na altura, estava por todo o lado, escondida, mas rodeava-me, pronta a atacar... e eu deixei-me ir na fita - até hoje.

No ano seguinte (1986), conheci Luandino Vieira em pessoa, naquela mesma sala de reuniões, quando me foram pedidas capas para a parceria que as Edições 70 tinham com a União de Escritores Angolanos. Lembro-me do espanto do Luandino quando apresentei o original da capa para o seu livro Nós os do Makulusu (maior que um A3), para a versão da UEA. Rui Oliveira, a “mão negra” de Soares da Costa, esclareceu o autor angolano, na sua voz sibilina – mais mortífera que a do patrão – “não se espante, o Sr. Machado Dias, tanto faz originais mastodonticos, como miniaturas que mal se vêem...” – respondendo eu que as miniaturas não eram a minha especialidade...

O Luandino riu-se muito e ficámos par aí.

Aqui ficam algumas das ditas capas – as que guardei e arquivei...

Capa de Victor Mesquita

Duas das minhas capas para Obras de Luandino Vieira:

Motivo - Montagem fotográfica. 
Fundo - montagem fotográfica trabalhada a aguarela e tinta-da-china

Motivo - pormenor de fotografia. Fundo - pormenor de fotografia muito desfocada.

Para a União de Escritores Angolanos:

Original - um pouco maior que um A3 - Guache e lápis-aguarela
A capa:

Original em A3 - pintado a lápis de aguarela

Original em A3 - Guache e lápis-aguarela
A capa:
Montagem fotográfica em fotocópias trabalhadas a lápis-aguarela e tinta-da-china

Montagem fotográfica

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sábado, 26 de março de 2011

A HISTÓRIA DA NOSSA FAMÍLIA - UM LIVRO PARA AS EDIÇÕES 70 - 1986

Joaquim José Soares da Costa, o director geral (proprietário) das Edições 70, gostava de editar livros, mas sobretudo de criar livros. Em 1986 apareceu na editora com um livro inglês The History of Our Family e disse para os funcionários editoriais (director editorial, director de produção, director de vendas, designer gráfico, etc...), sentados à volta da mesa da sala de reuniões: 
são coisas destas que temos de fazer, meus senhores!

Assim nasceu aquilo que veio a ser este livro: A História da Nossa Família.

Com tradução e adaptação dos textos do original inglês, por Artur Lopes Cardoso e para o qual criei um design não muito longe do livro original, mas com alguns conceitos diferentes, baseados no grafismo dos anos  1920. 

Depois do livro ser editado (tacticamente no início de Dezembro, tendo as duas primeiras edições esgotado num ápice) apareceram uma série de livros idênticos, por outras editoras que não quiseram ficar atrás. Acresce que a partir da segunda edição os autores dos textos e do grafismo, foram apagados da ficha técnica e do rosto, além de terem sido alterados os mapas das Árvores Genealógicas, que na primeira edição eram desdobráveis. Enfim... 

É claro que actualmente na internet existem toda uma série de sites com ferramentas para se criarem Árvores Genealógicas, mas nenhuma oferece as possibilidades que existiam nas 128 páginas deste livro, onde se podiam anotar uma série de eventos ligados à família, recordações de veículos, casas, lugares por onde a família passara, colar fotografias, etc...

Deixo-vos aqui a capa e algumas páginas duplas:










A História da Nossa Família ainda se encontra por aí à venda, especialmente na internet...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A SAGA DAS CAPAS PARA A COLECÇÃO CALIGRAFIAS, EDIÇÕES 70 – 1987 (2)

Como disse no post anterior, saíram quase de rajada, em 1987/88 quatro ou cinco livros da Colcção Caligrafias, das Edições 70. Depois de A GRANDE ARTE, de Ruben Fonseca e de MIUDAGEM, de Susan Minot (capa que falhei, como expliquei atrás), seguiu-se MORRER, de Arthur Schnitzler, MORTE SUSPENSA, de Maurice Blanchot e LOVE ME TENDER, de Catherine Texier, que foi a última que concebi e realizei. Mais uma vez chamo a atenção para as técnicas que utilizávamos naquela altura: fundos pintados, recortados, fotografados, etc... lettering Mecanorma, transparências com papel vegetal, recortes a x-acto ou tesoura, etc... etc...

O projecto dos layout das três primeiras capas (de que o segundo não foi utilizado, como já disse e que teve a particularidade de o fundo ter sido a fotografia em contraluz de uma chapa de esferovite, onde colei umas figuras pintadas a guache e recortadas), foi todo apresentado em fotografia...

O processo de MORTE SUSPENSA, de Maurice Blanchot:

Maquetas. Fundos pintados a spray, desenhos a lápis de grafite e de cor, quadros em recortes e transparência com vegetal.

 Estudos para a contracapa...

Estudo para a capa (o vegetal, aqui, rasgou-se)...

Capa Final - plano capa, contracapa e lombada:



As outras capas já saíram todas muito naturalmente:

Ilustração toda a guache.


Fundo em cor directa (negro: 100% das quatro cores - cyan, magenta, yellow e black) - ilustração em recorte de foto, com recurso a fotocópia de alta definição a cores, utilizando papel vegetal par dar o efeito...


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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A SAGA DAS CAPAS PARA A COLECÇÃO CALIGRAFIAS, EDIÇÕES 70 – 1987

J.J.Soares da Costa, depois de fazer as pazes com Eduardo Prado Coelho (o “bolinha semiótica”, como lhe chamavam na Universidade Nova nessa altura e não sei porque estavam eles de relações cortadas…), resolveu criar uma colecção de literatura, coisa que não constava do catálogo das 70, dirigida por EPC, com a designação Caligrafias.

O primeiro título, que tive que ler (felizmente, porque fiquei fã do autor), era do brasileiro Ruben Fonseca, A GRANDE ARTE. Como já tinha ensaiado o layout geral, realizei a composição recorrendo a uma colagem de recortes vários, tendo realizado sobre a foto de fundo, uma intervenção desenhada a tinta da china (as palmeiras).

Para o segundo volume da colecção, MIUDAGEM, de Susan Minot, e por uma birra do editor, devido a não me ter despachado com a criação da capa no tempo que ele estabeleceu, foi entregue a umas "meninas" acabadas de formar em design (salvo erro pelo IADE) e que o deixaram “derretido” na reunião de apresentação daquilo que, considerei um “objecto estranho” à colecção, mas enfim, ele é que mandava e eu ganhava o mesmo – tinha ordenado mensal fixo. Soares da Costa ficou arrependido de ter aceite o trabalho das “meninas” quando, propositadamente depois da edição do livro, lhe mostrei a maqueta da minha capa.

Fiquemo-nos por hoje com A GRANDE ARTE

Maquetas para o layout da colecção Caligrafias.

Capa final (aprovada a única proposta).

Original da foto de base, com a colagem em primeiro plano da imagem de um "cadáver" (havia várias mulheres assssinadas no livro), e com as indicações para a gráfica.

Indicações para montagem do plano geral da capa, para a gráfica.

Plano da capa, contracapa e lombada.

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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

OS INTÉRPRETES, DE WOLE SOYNKA, EDIÇÕES 70, 1986

Em 1986, o nigeriano Wole Soynka ganhou o Prémio Nobel da Literatura e as Edições 70 eram a única editora portuguesa que tinha um livro desse autor editado em português: Os Intérpretes.

J.J. Soares da Costa chamou-me de urgência e lançou-me o ultimatum: Este tipo ganhou o Nobel, dizia ele exibindo Os Intérpretes na minha frente - quero uma capa nova para este livro, amanhã à tarde, com uma tira a dizer Prémio Nobel de Literatura 1986!!! Entendido? - Perfeitamente, sr. Soares da Costa, respondi eu.

E a partir daí foi uma autêntica corrida. Li o livro todo nessa noite, a minha mulher também, um stress danado e eu sem ideia absolutamente nenhuma para uma capa que encaixasse naquela "coisa". Às seis da manhã já estava a folhear revistas, a ver se me "aparecia" alguma cena a condizer. Mas nada. Népia de népia.

Fui para a editora de manhã cedíssimo, e continuei a folhear revistas, a fazer recortes e... nada que se aproveitasse. Às cinco da tarde fiz um lettering, meio à balda e comecei a colar recortes sem nexo. Às seis da tarde, o patrão chamou-me: Então, temos capa? E eu: Bem... hummm talvez... e mostrei-lhe uma colagem a preto e branco - isto se calhar funciona, com um fundo em marfim. - É um bocado estapafurdio, respondeu o boss. O livro também é, disse eu. O que é que te parece? Perguntou o director geral à "alma negra", de nome Rui Oliveira e que me fazia a vida mesmo negra, com dúvidas e mais "ses" e "mas" e "etecetras" e "hunnns" e outros grunhidos semelhantes... Pode ser que sim, disse ele - para mim foi um alívio - e a capa avançou assim para a gráfica. No dia seguinte tive que ir a Mafra para afinar o "marfim" que propus para cor de fundo e que ninguém sabia o que era....

Bem, a capa ficou como se pode ver abaixo e, apesar de tudo, depois de reler o livro (e dessa vez achei que é excelente), até nem destoa do conteúdo...


Capa, lombada e contracapa:


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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ETIQUETA E BOAS MANEIRAS, EDIÇÕES 70, 1987

Um dos livros que me deu maior gozo realizar nas Edições 70:

ETIQUETA E BOAS MANEIRAS
Ana São Gião
1987

Capa: fundo a spray azul sobre cartolina, ilustração (foto) recortada a x-acto e colada sobre o fundo. As ilustrações para o texto foram executadas a lápis (grafite) sobre papel cavalinho.

De notar que o lettering da capa foi todo ele desenhado à mão, recortado e colado no fundo. O original da capa era mais ou menos em formato A3.


Ilustrações:








Capa recuperada (digitalizada) a partir de um exemplar do livro encontrado numa biblioteca pública.

Capa da actual edição (Edições 70 - Almedina) - via Wook, como se pode ver.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AS PRIMEIRAS CAPAS


O início da minha actividade como gráfico (nessa altura raramente se usava a palavra designer – era “desenhador gráfico” como nos designavam), deu-se verdadeiramente com as Edições Vega em 1983, quando realizei a minha primeira capa: Fábulas do Tempo Presente e do Tempo Futuro, de Carlos Couceiro (falecido em Março deste ano, era engenheiro, também guitarrista – foi o primeiro guitarrista de José Afonso – e pai do piloto de automobilismo Pedro Couceiro), livro que também ilustrei, seguindo-se a capa de Capim e Poemas Supérfluos do mesmo autor. Estava empregado na Ilídio Monteiro Construções, Lda. (1981/1984), como desenhador de arquitectura e construção civil e ia fazendo uns extras por fora: capas para a Vega, desenho de projectos e maquetas de arquitectura para diversos arquitectos, projectos de legalização de moradias, criação de logótipos, pintura de montras de lojas, etc….

Uma das primeiras capas de colecção que fiz para as Edições Vega, de Assírio Bacelar.
O layout já existia, portanto foi só finalizar o título, o nome do autor, descobrir uma foto do mesmo e acrescentar-lhe uma pequena "marca" pessoal: a caneta em cima das folhas de papel.

Quando terminei a colaboração na Ilídio Monteiro em 84, já estava muito mais virado para o grafismo e a pouco e pouco fui largando o desenho de arquitectura. Em 1985 respondi a um anúncio das Edições 70, onde entrei como desenhador gráfico para fazer o grafismo e a paginação do Boletim editorial da editora (que celebrava o 15º aniversário) para a Feira do Livro desse ano, realizando depois a decoração dos stands.


A primeira capa que fiz nas Edições 70 foi, se não me engano, para a prestigiada colecção Lugar da História cuja capa, como quase todas as capas das 70, havia sido concebida e desenhada por Alceu Saldanha Coutinho – que já lá não trabalhava e nunca cheguei a conhecer. Ora Saldanha Coutinho trabalhava com tipos de letra desenhados por ele próprio: os alfabetos eram fotografados na gráfica em diversos corpos (ou tamanhos) e ele recortava depois cada tipo de que necessitava e formava assim os letterings das capas. Isto dava uma trabalheira incrível, como se perceberá, quando há mais de vinte anos se usavam letras decalcáveis para esse fim. A pouco e pouco fui substituindo as letras desenhadas à mão por tipos Mecanorma. Mas o da Lugar da História, J.J. Soares da Costa, o editor, director, dono, etc… das 70 nunca me autorizou que o substituísse.


Capa de Alceu Saldanha Coutinho para a colecção "Lugar da História" e a primeira capa que realizei para essa colecção - eliminando os meios tons.


Assim, quando foi necessário “dar cor” às capas (que eram só a uma cor – uma cor da escala pantone para o fundo e rede de 50% para o nome do autor e ilustração), reformulei timidamente o layout, mas tive de manter o lettering do Saldanha Coutinho. Aquilo era sagrado!!!

Vejam-se abaixo as maquetas com cor e a capa aprovada.


Capa aprovada, completa


Curiosamente, dezoito anos mais tarde, em 2003 e 2004, voltei a trabalhar para as Edições 70 e a fazer nova alteração para as capas da colecção "Lugar da História". J.J. Soares da Costa queria aumentar o formato da colecção, para tentar evitar que se fotocopiassem os livros. A essa alteração, juntei outras no desenho da capa, quase imperceptíveis, e finalmente adoptei um lettering do mapa de tipos do Corel Draw, o Elephant condensado, que era o que mais se parecia com o anterior.


As duas capas completas que realizei em 2003 e 2004.

Resta dizer que em 2005 J.J. Soares da Costa vendeu as Edições 70 à Almedina e reformou-se. A Almedina tratou de também reformar todas as capas das colecções das 70, mas ainda se encontram muitos livros com capas minhas desse período, nos alfarrabistas.

Para as Edições 70 realizei, em três anos e meio um número de capas que não consigo quantificar (cerca de 7 a 10 por mês), algumas delas entrarão neste blogue, a seu tempo.

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