domingo, 20 de novembro de 2011

DESIGNpress #4 (recortes de imprensa sobre design): COLECÇÃO D – UMA COLECÇÃO DE LIVROS SOBRE DESIGNERS PORTUGUESES


 In Pública (revista dominical do Público), 20 Novembro 2011

design

Os anticalhamaços do design português

Estava quase tudo por fazer. Mãos à obra. Jorge Silva, designer, agora Jorge Silva, coordenador da Colecção D. Para preencher a falta de uma história do design português, eis perto de 50 histórias de autores portugueses para nos falar do passado e do presente - com pouca conversa e muita imagem.

Texto Joana Amaral Cardoso - Fotografia Pedro Cunha

Jorge Silva tem uma queda pela historiografia da sua actividade profissional - a ilustração é uma paixão querida cuja história portuguesa tem coligido no seu blogue Almanaque Silva; o design é uma profissão apaixonada e surgiu a "oportunidade acidental" de colmatar a lacuna, grave, da falta de uma história do design português em livro. Mas sem "uma visão aristocrática do design", que seja um "motor aspiracional para os alunos" de design que se multiplicam pelo país.

Juntou-se o útil ao agradável: um telefonema, uma ligação profissional à Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) e a vontade do director editorial Duarte Azinheira de "reciclar e construir uma memória da contemporânea da cultura portuguesa" e nasce a ideia e a proposta da Colecção D. D de design, pois claro, "sobre design português antigo e contemporâneo, velhas glórias e novas glórias", resume Jorge Silva.

O designer, timoneiro da Silvadesigners, ex-director de arte do grupo Leya, professor, conferencista, designer e afins, sente na pele um problema: "A história do design português está toda por fazer." Sente-se nas aulas, na academia, nos museus, no exercício da profissão. Cada geração, diz, parece começar do zero e só depois faz a sua descoberta individual da herança que lhe cabe. "O design português e a memória das artes gráficas e visuais", contextualiza ao telefone com a Pública, "lutam com este abandono e esquecimento".

Ao longo da conversa, fala-se do "flagelo da ignorância" nas escolas e editoras, do "romance cansativo, mas muito facilitado pelas famílias e herdeiros dos designers" já desaparecidos que é a feitura de cada livro. Do "picante" que tem estar a fazer livros sobre os seus concorrentes (a Silvadesigners é uma empresa de design gráfico) mas também da "anemia" da indústria que devia acolher designers e da "paranóia do calhamaço" (lá iremos). E isto leva-nos ao presente-futuro. E a contas, claro, que os tempos não estão para menos.

É que também há coisas boas. Como a conclusão de que, afinal, o design pode ser associado a "viabilidade económica". Apesar de querer igualmente trabalhar a história da ilustração portuguesa, "percebi que uma colecção sobre designers era mais viável. Porque o design é uma força motora, no posicionamento das indústrias criativas e de desenvolvimento". No fundo, este é o país em que há perto de 100 cursos superiores de design e em que, segundo os dados do estudo da Augusto Mateus & Associados sobre os sectores cultural e criativo em Portugal entre 2000 e 2006, o design é a actividade criativa em que o crescimento cumulativo de emprego mais aumentou -6,4 por cento.

Futuro hipotecado

O volume de trabalho e a visibilidade (e prestígio) crescentes do design em Portugal não tem de significar tomos gigantescos e palavrosos. Os tais "calhamaços", recorde-se. A Colecção D quer-se "ágil e bem confeccionada, bilingue e capaz de mostrar muitas imagens", explica o coordenador da colecção, frisando que estes são potenciadores de "um primeiro encontro com estes autores" e que são mesmo "livros de pouca conversa" - e a existente é focada. A historiadora de design Raquel Peita prefacia o Dl, dedicado aos R2, e a directora do Museu do Design e da Moda (Mude), Bárbara Coutinho, escreve no segundo livro da colecção sobre Victor Palla.

O Mude, aliás, apoia a colecção e é lá que, terça-feira, a colecção tem o seu lançamento oficial com um debate moderado por Bárbara Coutinho, com Jorge Silva, Simonetta Luz Afonso, Mega Ferreira e Henrique Cayatte, presidente do Centro Português de Design (parceiro do projecto). A Colecção D tem um elenco previsto de cerca de 50 nomes, a ideia é lançar seis tomos por ano e os primeiros números já estão nas lojas - atelier R2 (Lizá Defossez Ramalho e Artur Rebelo, design gráfico) e Victor Palia (designer gráfico das capas das editoras Arcádia e Coimbra, por exemplo); os senhores que se seguem são Pedro Falcão e Paulo-Guilherme, ainda em 2011.

O próximo ano começa com Marco Sousa Santos e Fernando Brízio (ambos nas áreas do produto) e ainda por aí virão Miguel Vieira Baptista (produto, exposição), Luís Miguel Castro, Sebastião Rodrigues e Dorindo Carvalho. A ideia é integrar designers de todas as áreas - gráfica, produto, expositivo, moda, jóias. Mas é uma verdade, e Jorge Silva acolhe-a, que neste início há preponderância do design gráfico. Tudo porque, "dadas as condições do país, um designer gráfico tem uma produção mais vasta do que um designer de produto", exemplifica. Cartazes, capas, livros, folhetos vs. cadeiras, mesas, candeeiros sem garantia de produção em série num país industrialmente amputado. Mas o equilíbrio é uma preocupação e existirá, garantem os organizadores da colecção.

As condições do país levam-nos ao princípio da conversa. Afinal, porque há uma história por fazer de uma actividade que na última década é tão valorizada? Hoje, o interesse é crescente, admita-se. Mas além das maleitas costumeiras diagnosticadas ao português (a memória curta, a descrença, a maledicência), Jorge Silva arrisca uma explicação: é tarde. "O design chegou muito tarde a Portugal, não enquanto matéria de trabalho [vejam-se os casos de Palia, António Garcia ou Sebastião Rodrigues, que não se chamavam designers mas faziam design no século XX português], mas como disciplina de estudo, como consciência de si próprio. 0 design só chega às faculdades nos anos 1970, num país com sobressaltos e crises constantes, que hipotecou o futuro e a sua capacidade de produção teórica e de produto."

Por isso, esta colecção é um misto de "serviço público" - um elogio de Jorge Silva à INCM -e educativo. Além do circuito comercial, a Silvadesigners tem uma campanha para que todos, mesmo todos os professores de design do país saibam da Colecção D. Um ponto de contacto do futuro com o presente e o passado do design português.

A colecção (€16 cada volume) é numerada e as suas capas (da Silvadesigners) querem ser uma "leitura descontraída da época e obra dos autores"






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O aparecimento desta “Colecção D”, com a chancela da Imprensa Nacional Casa da Moeda e a direcção editorial do atelier SilvaDesigners, é, indesmentivelmente, um grande acontecimento no pequeníssimo meio do design de comunicação em Portugal, um país cuja bibliografia em torno de temas comuns às disciplinas que compõem ou compuseram historicamente o design gráfico é escassa e quase sempre destinada ao mercado dos livros “raros” e “esgotados”. Que a colecção comece emparelhando dois nomes mais do que consensuais da prática, ainda que de gerações distantes entre si, parece-me um gesto corajoso e que denota alguma inteligência comercial: sendo bilingues, estes são dois livros sobre designers que, de uma forma ou outra, conseguiram ultrapassar os limites nacionais e impor o nome no estrangeiro (Palla, é claro, fê-lo já postumamente e apenas através da “redescoberta” internacional do Lisboa Cidade Triste e Alegre; quanto aos R2, terá havido portfolio nacional mais “globalizado” e difundindo internacionalmente nos últimos quinze anos do que o da dupla Lizá Ramalho e Artur Rebelo?), pelo que as possibilidades de venda no mercado “global” são consideráveis. Em troca de emails com o responsável pelo conceito da colecção, o designer Jorge Silva, fiquei a saber que um dos modelos em mente seria a série de livros sobre designers contemporâneos “Design&Designers” da editora francesa Pyramid (até no formato, uns bem portáteis 18 x 15 cm), o que concorre para a ideia de uma tentativa (legítima e louvável) de entrada e competição no mercado internacional.

Por Pedro Marques em http://pedromarquesdg.wordpress.com/2011/10/13/coleccao-d-victor-palla-e-r2/

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terça-feira, 28 de junho de 2011

NOVA CAPA PARA NOVA VEGA: AMÍLCAR CABRAL (1924-1973) - VIDA E MORTE DE UM REVOLUCIONÁRIO AFRICANO, DE JULIÃO SOARES SOUSA

O lançamento do livro 
AMÍLCAR CABRAL (1924-1973) 
VIDA E MORTE DE UM REVOLUCIONÁRIO AFRICANO
do Dr. Julião Soares Sousa amanhã, dia 29, serve-me de mote para apresentar esta capa, 
realizada em Abril/Maio passados.

Comecei, como de costume por apresentar algumas propostas com variantes, utilizando, como não podia deixar de ser, fotos de Amílcar Cabral, algumas delas fornecidas pelo autor:


  Com esta última optei por recortar o perfil de Cabral, eliminando o resto...





A primeira proposta foi a aprovada...


Como era a que me desagradava mais, porque lhe faltava alguma da "cor-essência" daquilo que eu penso que é a Guiné-Bissau, resolvi alterar-lhe o fundo, indo buscar uma foto que não tinha utilizado e mostrava o contexto físico da guerra de guerrilha: a mata.


Aproveitei para fazer desta foto capa, lombada e contracapa, optando por dar um verde em fundo, que se estendeu às badanas. Como era preciso uniformizar ligeiramente a capa para fazer destacar o lettering, dei alguma transparência ao lado direito da foto, deixando-o absorver o verde do fundo geral.

A coisa ficou assim:


Foi preciso depois resolver melhor a legibilidade da lombada, pelo que optei por lhe dar o verde de fundo, com alguma transparência:


Mas devido a algumas reticências do editor, perante um estilo que não é habitual na Nova Vega, enviei a capa para o autor que lhe deu um OK entusiasta. E assim ficou.


Resta acrescentar que o lançamento vai ser, como disse acima, amanhã, dia 29, 
na Casa Municipal da Cultura, em Coimbra, pelas 17:00h. 
Aqui fica o convite:


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quarta-feira, 15 de junho de 2011

DESIGNpress #3 (recortes de imprensa sobre design): AS CAPAS DA COLECÇÃO 'UMA AVENTURA'


Público, revista Pública, 12 Junho 2011

o design nosso de cada dia

CAPAS DA COLECÇÃO 'UMA AVENTURA'

Texto Frederico Duarte

Não é preciso ter andado na escola preparatória (como a que e vê na capa acima) ou vivido só com quatro canais para reconhecer que a colecção de livros Uma Aventura é um dos mais bem-sucedidos casos de design português.

Tal como os leitores da sua primeira aventura, Pedro, Chico, João, Teresa e Luísa eram crianças dos anos 1980. Os intrépidos personagens criados por Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada viviam num tempo e num país diferente do nosso.

Mas se os primeiros leitores de Uma Aventura cresceram ao longo de quase três décadas, os livros não deixaram de ser lidos.

Cinquenta e três volumes, dezenas de edições e 7,5 milhões vendidos comprovam a sua popularidade junto de várias gerações. Que além dos livros conhecem as suas capas, mesmo não conhecendo o seu designer.

José Serrão chega à Editorial Caminho poucos anos depois de, ainda antes do 25 de Abril, ter feito parte da UEC (União dos Estudantes Comunistas) quando estudava Arquitectura na então Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (actual FBAUL). Em 1982, faz, entre outros trabalhos, a capa para a primeira edição de Memorial do Convento, de José Saramago, definindo a austera e singular linha gráfica das restantes obras do Nobel português. Também em 1982,0 histórico editor da caminho Zeferino Coelho pede-lhe "a grelha" para uma colecção, "à maneira d'Os Cinco, mas adaptada ao quotidiano português da altura", que "duas professoras do ciclo" acabavam de lhe propor. Inspirado pelos expressivos títulos caligráficos de livros soviéticos que a Caminho então traduzia e publicava, Serrão começa por desenhar, "numa folha de papel couché, com caneta Rotring e pistolet", o logótipo Uma Aventura.

A seguir vem a capa. Sobre um fundo de cor plana, mais de metade é uma ilustração de Arlindo Fagundes - o prolífero realizador, ceramista e autor de BD que Serrão convida para ilustrar capas e miolo dos livros. o topo, ao logótipo da colecção somam-se o título e nomes dos autores em Futura Script, tipo de letra "decalcado à unha em letras Mecanorma" (uma referência do design gráfico tão anos 1980 quanto os discos de Ana Faria). Em baixo, o logótipo da editora, cuja versão actual criado por Henrique Cayatte (que esteve na Caminho na altura em que Serrão sai, entre 1984 e 1990) só surge mais tarde. A lombada, de cor diferente da capa, contém os logótipos da colecção e da editora, título e número do volume impresso desde 1987 a preto dentro de caixa amarela. Com fundo igual à capa, a contracapa tem os retratos dos cinco heróis (e seus cães caracol e Faial) e uma ilustração alusiva ao volume seguínte.

Projectadas para uma colecção que não pára de crescer (entre 1983 e 1985 saíram quatro livros por ano), estas capas descomplicadas e coloridas eram também, diz Serrão, "verdadeiras peças de combate para uma estrutura sem capacidade de investimento". O seu design, fácil de (re)produzir e adaptar, rentabilizava fotolitos e outrosdispositivos gráficos, baixando custos de impressão - e o preço de cada livro.

Para Sofia Bernardo, hoje a responsável editorial pela colecção na Caminho, a adequação do design ao propósito destes livros é o principal motivo do seu sucesso e longevidade. Escritos como "literatura que fosse acessível a todos", continuam a ser livros de formato e produção barato , "que qualquer miúdo pode começar a ler".

Em 30 anos, muito mudou nos livros em Portugal. Em 2008, a Caminho foi integrada no grupo editorial Leya e uma estratégia de marketing levou ao redesenho de muitas das suas colecções, como as de Saramago ou Alice Vieira. Mas não de Uma Aventura; além de renovados retratos dos heróis, a contracapa de cada novo livro tem só mais um logótipo.

Para satisfação de Serrão (que deixa a editora em 2008), o design da colecção tornou-se tão reconhecível e querido que já ninguém se arrisca a mexer-lhe.

Estarão estes livros entre os mais elevados exemplos de design gráfico português? Não.

Mas enquanto veículos para as aventuras que acompanham tantos miúdos portugueses no seu caminho para a idade adulta, não poderiamos pedir melhor. Nem nos anos 1980, nem agora.

 

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Imagens da responsabilidade de Design & Grafismos
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sábado, 26 de março de 2011

A HISTÓRIA DA NOSSA FAMÍLIA - UM LIVRO PARA AS EDIÇÕES 70 - 1986

Joaquim José Soares da Costa, o director geral (proprietário) das Edições 70, gostava de editar livros, mas sobretudo de criar livros. Em 1986 apareceu na editora com um livro inglês The History of Our Family e disse para os funcionários editoriais (director editorial, director de produção, director de vendas, designer gráfico, etc...), sentados à volta da mesa da sala de reuniões: 
são coisas destas que temos de fazer, meus senhores!

Assim nasceu aquilo que veio a ser este livro: A História da Nossa Família.

Com tradução e adaptação dos textos do original inglês, por Artur Lopes Cardoso e para o qual criei um design não muito longe do livro original, mas com alguns conceitos diferentes, baseados no grafismo dos anos  1920. 

Depois do livro ser editado (tacticamente no início de Dezembro, tendo as duas primeiras edições esgotado num ápice) apareceram uma série de livros idênticos, por outras editoras que não quiseram ficar atrás. Acresce que a partir da segunda edição os autores dos textos e do grafismo, foram apagados da ficha técnica e do rosto, além de terem sido alterados os mapas das Árvores Genealógicas, que na primeira edição eram desdobráveis. Enfim... 

É claro que actualmente na internet existem toda uma série de sites com ferramentas para se criarem Árvores Genealógicas, mas nenhuma oferece as possibilidades que existiam nas 128 páginas deste livro, onde se podiam anotar uma série de eventos ligados à família, recordações de veículos, casas, lugares por onde a família passara, colar fotografias, etc...

Deixo-vos aqui a capa e algumas páginas duplas:










A História da Nossa Família ainda se encontra por aí à venda, especialmente na internet...

sábado, 12 de março de 2011

NOVA CAPA NOVA VEGA - PARA "DISTÂNCIA " DE TEOBALDO VIRGÍNIO



Enquanto faço as ilustrações para "O Pequeno Herói de Travanca", de Assírio Bacelar, realizo algumas capas para "descomprimir"...

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domingo, 20 de fevereiro de 2011

DESIGNpress #2 (recortes de imprensa sobre design): A IMPORTÂNCIA (OU NÃO) DO DESIGN DAS CAPAS DOS LIVROS NO MARKETING DOS MESMOS


Público, suplemento Ípsilon, 17 de Dezembro de 2010

PODE-SE JULGAR UM LIVRO PELA CAPA

Por Gonçalo Mira

Há quem aposte na excelência dos materiais e há quem não se possa dar a esse luxo. Há quem trabalhe com a prata da casa e quem encomende capas a especialistas. Eis alguns daqueles que contribuem para que um olhar pelos expositores de uma livraria possa ser uma experiência.

Vivemos tempos estranhos. Em tudo e no mundo dos livros também.

Se por um lado o panorama é composto por grandes grupos editoriais, financeiramente poderosos, que englobam várias editoras (para não falar em livrarias, distribuidoras), por outro lado, quase todos os meses nasce uma nova editora. E enquanto se vai discutindo e-books, leitores de e-books e morte do livro impresso, as livrarias vão sendo inundadas por novos títulos. Consequentemente, o espaço e o tempo de exposição na livraria acaba por se ressentir. Os grandes grupos podem usar técnicas de marketing mais agressivas, mas o que podem fazer os independentes? Além do critério da escolha dos títulos a publicar, a outra resposta óbvia é apostar na imagem.

Talvez seja cedo demais para falar, mas parece que atravessamos uma pequena revolução no design de livros em Portugal. Há quem aposte na excelência dos materiais e há quem não se possa dar a esse luxo. Há quem trabalhe com prata da casa e quem encomende capas a especialistas. O Ípsilon foi falar com alguns daqueles que contribuem para que um olhar pelos expositores de uma livraria possa ser uma experiência.

1 – Coerência despreocupada

A Livros de Areia nasceu em 2005, pela mão de Pedro Marques e João Seixas, em Viana do castelo. A quantidade de títulos publicados desde então é inversamente proporcional à qualidade dos mesmos. Poucos mas bons. Com parcos recursos, sem possibilidade de fazer os livros como gostariam, fazem-nos como podem. E não o fazem mal. Pedro Marques, que é também editor, faz as capas. Com formação em História da Arte, considera-se um autodidacta nesse oficio. Se às vezes a palavra é olhada com estigma, para Pedro isso não é grave, porque está "em muito boa companhia. Um dos meus designers favoritos é Quentin Fiore, autodidacta, que trabalhou com o Marshall McLuhan em todo os livrinhos dele."

O trabalho é sempre feito a posteriori. Com o texto já em mãos, pensa a capa e executa-a. Tudo feito livro a livro, sem pensar num design de colecção. "Não posso ter um design seriado se tenho apenas dois livros por ano. Corro o risco de as pessoas se esquecerem e essa arma perde-se." No entanto, há uma imagem reconhecível nos Livros de Areia. Isto acontece por todas as capas obedecerem apenas ao gosto pessoal de Pedro Marques. De influência surrealista e expressionista, como uma das suas referências principais, Roman Cieslewicz, o processo é o de recorrer a bancos de imagens, juntar peças como num puzzle, mas também distorcê-las, de tal forma que o resultado seja reconhecível apenas enquanto capa da Livros da Areia. "A ideia é servir o melhor possível o titulo e o autor. Mas se de facto há pessoas que acham que há uma imagem da editora, tanto melhor."

Os autores não se queixam, pelo contrário. Um caso curioso é o de Lázaro Covadlo, escritor argentino, que quis utilizar no seu país natal a capa feita por Pedro Marques para o livro "Criaturas da Noite". Adepto do paperback, do livro portátil que se leva em viagem, que não pesa, Pedro lamenta ainda assim não ter possibilidade de dar um melhor acabamento a alguns dos livros. "Se tivesse hipótese, teria feito o livro 'Da Treta' com uma capa dura com sobrecapa, com uma fitinha, ou seja, um livro à antiga." E não tem pejo em admitir um pecado mortal, quando lembra a qualidade das edições da Tinta-da-China: "Tenho muita inveja daquelas edições, gostava muito de fazer livros assim, mas não posso." Gosta, mas admite: "Essa não é a minha preocupação. A minha preocupação é fazer livros baratos, com o acabamento mais básico, colados, nem sequer têm cadernos." Assim descritos, imagina-se algo muito pior do que é. Porque com materiais barato também se produzem coisas boas. E a Livros de Areia não é o único exemplo. O trabalho de Pedro Marques não se esgota na edição e no designo Embora a uma escala que se pode dizer amadora (o que não significa falta de qualidade), é também alguém que pensa e que luta por que se pense o design de livros. Tenta fazê-lo no seu blogue (pedromarquesdg.wordpress.com) e nos artigos que vai publicando na Bang!, na Os Meus Livros e na Alice (clubalice.com). Não lhe interessam só os designers mas também os editores responsáveis por revoluções no design editorial, como os franceses Jean-Jacques Pauvert, Maurice Girodias e Eric Losfeld.

"Um dos grandes paradoxos da imprensa cultural, no que diz respeito ao livro em Portugal, é que há uma invasão das capas nos jornais e nas revistas que é inversa à reflexão sobre elas." É isto que quer combater com o seu blogue e com o espaço que lhe vão dando nas revistas.


2. Do livro ao objecto

Quando pensamos em bons exemplos de design de livros em Portugal é inevitável que o primeiro nome que nos vem à cabeça não seja o da Tinta-da-China. O mérito é todo deles e de Vera Tavares, responsável pelo logótipo e pelas capas da editora, desde o primeiro livro. Também na Tinta-da-China a linha gráfica não surgiu premeditadamente. "As coisas foram-se definindo," diz-nos Vera. Teve sempre liberdade artística e beneficiou de uma forte compatibilidade de gostos com a editora Bárbara Bulhosa. O facto de haver pessoas que identificam uma coerência gráfica virá, urna vez mais, do facto de ser a mesma pessoa a fazer as capas. Porém, para Vera é mais fácil ver essa coerência nas colecções do que no catálogo geral. Mas se a Tinta-da-China causou tanto impacto, isso não se deve apenas às capas. Tendo a possibilidade de investir nos acabamentos, não hesitou em dar aos livros dignidade especial. o catálogo encontram-se muitos livros de capa dura, com bons acabamentos, bom papel, uma embalagem luxuosa para um conteúdo que costuma corresponder em qualidade.

"Havia uma vontade de não fazer igual ao que se fazia," admite Vera, mas o objectivo é o mais básico: que o livro "esteja nas livrarias, que as pessoas o vejam e comprem, porque a capa é bonita e o conteúdo é interessante." Nesta busca pela capa perfeita, considera fundamental a escolha do tipo de letra. É importante que a fonte tipográfica se adecue ao conteúdo e quando a busca não traz resultados satisfatórios, é a própria Vera que desenha as letras. Por vezes volta a utilizá-las, até porque já tem "uma pasta com uma grande colecção de letras, que não chegam a ser fontes, porque não as sei transformar em fonte. São só letras desenhadas." Embora recuse a ideia de que há livros que, de tão bem trabalhados, se tornam objectos, acaba por concordar, reticente, quando se fala na colecção de humor dirigida por Ricardo Araújo Pereira. Os livros desta colecção acabam por ser objectos estranhos nas nossas livrarias, porque não têm lombada. As capas e os cadernos estão cozidos, com o "esqueleto" à mostra. A ideia foi da editora, Bárbara Bulhosa, que viu algo semelhante num catálogo de uma feira literária. Fez fincapé para que a ideia se concretizasse, porque é complicada de executar. Garante Vera: os livros são resistentes. "Foram feitos monos, que testámos e atirámos ao chão. É tão resistente como um livro de capa dura normal." E têm a vantagem de, por não terem lombada, se conseguirem abrir totalmente e manterem-se abertos em cima de uma mesa.

Objectos ou não, os livros da Tinta-da-China saltam à vista. Mesmo quando os autores fazem exigências, Vera consegue executá-Ias ao seu gosto e terminar com um produto que tem a sua marca. A marca da Tinta-da-China.

Vinda do mundo da publicidade, Vera Tavares tem formação em História. Como leitora e compradora, irrita-se quando um livro tem urna capa má. Mesmo assim, considera que em Portugal há cada vez mais bons exemplos no design de livros.



3. Os profissionais

A par das editoras em que o trabalho de design é feito dentro de portas, há outras que recorrem a ateliers profissionais. São casos disso as editoras do grupo Almedina, com grafismo a cargo da Ferrand, Bicker & Associados (FBA), ou a editora independente, sediada no Porto, Ahab, com design do Studio Andrew Hóward. Estes designers trabalham por encomenda, mas a responsabilidade para com o produto final é a mesma.

João Bicker, da FBA, explica-nos: "Trabalhamos sobre as ideias expressas por outros e procuramos interpretá-las visualmente. O essencial é a procura do entendimento do texto, da maneira que melhor o dá a ler. A escolha da tipografia adequada, da forma do livro e da página, o processo de colocar as palavras e as imagens na forma que melhor as sirva." Andrew Howard, inglês que trabalha em Portugal desde 1993, vê o processo de design como "a combinação entre o conceptual e o material para criar um objecto que tem de satisfazer as nossas sensibilidades intelectuais e tácteis." E é isso que toma o design de livros, para Andrew, um dos mais completos trabalhos de design gráfico.

O processo começa sempre pela leitura da obra. E no caso das capas para a Ahab, livros de ficção, "o conteúdo não pode ser resumido num simples momento gráfico." Por isso a leitura é fundamental, para perceber não só a história, mas o seu universo e estilo. Para João Bicker "não há nada mais importante do que a escolha da tipografia, das letras que darão a ler o texto. Cada tipo de letra carrega no seu desenho características formais e históricas que influenciam a leitura porque influenciam a forma do texto." É importante ter em conta que a FBA, ao trabalhar com o grupo Almedina, tem em mãos muitos livros de ensaio, que pedem uma abordagem diferente da ficção. Nos livros de ficção da Ahab, Andrew Howard quis fugir ao facilitismo da tipografia sobre imagem e enveredar antes pelo caminho da união. "O texto toma-se imagem, em vez de ser um elemento separado," diz. Ou seja, Andrew Howard e João Bicker têm abordagens distintas, mas ambos consideram crucial dar importância às letras.

A Ahab, com um ainda curto período de existência, já ganhou a atenção da crítica e dos leitores que, além da inquestionável qualidade literária de autores que Portugal desconhecia, elogiam também o sólido projecto gráfico do Studio Andrew Howard. E a colecção Minotauro, das Edições 70, desenhada por João Bicker e Ana Boavida, recebeu prémios internacionais de design.

Se estes dois ateliers estão a produzir boa parte do melhor design de livros que se faz em Portugal, como olham para o trabalho dos outros? Andrew Howard acha que a percentagem de trabalhos bem feitos em Portugal não andará longe do que acontece pela Europa. Já João Bicker é mais crítico. Se é essencial fazer livros que se destaquem nas Iivrarias, acha que essa tarefa está facilitada "na medida em que o mercado português se caracteriza por uma uniformização de soluções que tudo mistura e tudo confunde."







4. Geometria não alinhada

"Isto é uma editora pobre e funcionamos sempre com recursos muito parcos." Foi assim que começou a conversa com Vítor Silva Tavares, editor da &etc, uma editora que existe há quase 38 anos, que sempre se manteve à margem, de costas voltadas para o mercado. Há quase 38 anos que faz livros com o mesmo formato, com os materiais mais baratos, e que ainda assim não podem ser ignorado, pelo projecto único que representam. Tudo começou no quadrado. Um dia, depois de abandonar o "Diário de Lisboa" para se lançar a uma aventura poética, criar a revista &etc, Vítor Silva Tavares pôs-se a pensar no formato que a revista ia ter. O quadrado já lhe andava na cabeça. Pegou num papel e num lápis e desenhou-o. "Um quadrado imperfeito, claro, feito à mão. E a seguir inscrevi-o dentro de um rectângulo, porque se era uma revista, tinha de ser rectangular." As medidas foram aperfeiçoadas e aquilo parecia harmonioso aos olhos do seu criador. Fazendo curta a longa história, o formato foi definido para a revista e depois foi feito numa escala menor para os livros da &etc. Assim nasceu e te formato único, de personalidade vincada. "O quadrado é quase mítico", diz-nos Vítor Silva Tavares. Por isso é que é dentro do quadrado que os artistas desenvolvem o desenho das capas da editora. E aquilo que podia ser uma limitação aos artistas, acaba por ser "um desafio à inventividade e à criatividade." O que explica, na opinião do editor, a felicidade de algumas das capas da &etc. A utilização dos materiais mais baratos é motivada não só pelos parcos recursos, mas também pelo "gosto por esses materiais pobres, que ainda têm personalidade, que não são plastificados industriais, e que pretendo recuperar dando-lhes uma nobreza."

Depoia,a ideia era "dar tanta ênfase à ilustração, à pintura, como à mensagem literária. De forma a constituir um todo e, e possível, fazer do livrinho um objecto onde as artes plásticas e o conteúdo fizessem uma unidade." Dentro daquele quadrado que e insere nas capas da &etc passaram muitos artistas. Ilustradores, pintores e também designers. Só que designers é uma palavra que não se usa naquela cave da Rua da Emenda. Os designers colaboraram enquanto "desenhadores, ou pintores, ou ilustradores. As nossas capa não são capas de design." A &etc funciona num universo à parte e orgulha-se disso.Será assim até ao fim. não podemos falar aqui em design da editora, mas podemos elogiar o projecto gráfico e artístico, que assim Vítor Silva Tavares não se zangará.



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